A Casa das Maravilhas

Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Uma festa de crianças deve ser didáctica?

Uma questão que levantamos a todos os nossos leitores e visitantes: uma festa ou espectáculo para crianças devem ser didácticos ou basta que seja divertidos, interessantes?

Na nossa opinião e dada a experiência de longuíssimos anos, quer no teatro, quer agora na animação de festas e outros eventos, o didactismo tem pouco que ver com os espectáculos para crianças, de ou para as crianças. Quando dizemos didactismo queremos dizer neste caso festas com uma intenção de "ensinar" as crianças num espectáculo teatral ou numa festa de aniversário que é sobretudo delas e para elas e não de quem pretende aproveitar o momento para destilar ideias, principios, orientações de seita ou culto religioso ou filosófico, etc.
A questão fundamental nesta discussão é simplesmente isto: a festa é das crianças, não do actor, animador, actriz ou animadora.
Se os pais ou outros organizadores de festas ou espectáculos entendem aproveitar uma festa de aniversário para que as crianças estejam "ocupadas" e não aborreçam os adultos durante o evento, trata-se de uma decisão dos pais, livre portanto. Mas não se trata de uma decisão das crianças. Estas querem divertir-se e não apenas estar "entretidas". E muito menos estar entretidas a escutar histórias didácticas ou a realizar jogos didácticos como se estivessem numa escola ou ATL.

As crianças já têm a escola obrigatória, isto têm de ir para lá mesmo que alguma escola não seja para aprender mas sobretudo para as crianças estarem com alguém uma vez que os pais tiveram de ir os dois trabalhar (é o progresso, diz-se). Se lhes vamos ainda dar um espectáculo ou uma festa com intuitos didáctivos então (e isto pensamos nós, é a nossa opinião entenda-se), não estamos a respeitar os verdadeiros interesses das crianças num acontecimento que sobretudo lhes pertence.
Os pais ou outros encarregados de educação devem pois escolher os actores/animadores, etc. tendo em atenção esse aspecto, se desejam que uma festa seja também didáctica, isto é, que nos jogos, nas histórias, nas peças e até nas magias, o actor/animador ensine sempre qualquer coisa às crianças presentes, isto é, que os seus espectáculos tenham um "conteúdo" didáctico, então devem esclarecer bem esse objectivo pois nem todos os programas se adaptam a essa vertente didáctica.

Imagine-se se as crianças fossem brincar para um parque infantil e houvesse lá alguém com responsabilidade de dizer o que as crianças devem ou não fazer, que há um sol e uma lua, que há meninos com fome, que a natureza tem de ser protegida, etc. etc. Os parques infantis seriam pois um prolongamento da escola. As crianças saíam da escola, iam passear ao Domingo para o parque e surgia uma senhora magra e com um ar de quem possui toda a verdade do Universo, a explicar-lhes como é que este tinha surgido, como é que os meninos podem ser meninos com sucesso, etc. etc. Realmente muito divertido!

Dir-nos-ão: sim, mas também há muitos actores/animadores que fazem isso, os seus programas são didácticos. Sim, é verdade e é precisamente para esses que os pais que desejam que as festas dos seus filhos sejam didácticas, devem encaminhar as suas reservas. Porque a concepção que esses animadores têm é diferente da nossa: nós não pensamos que as crianças sejam todas escuteiros/as, que as crianças tenham que ser dirigidas como se as festas fossem prolongamentos das aulas. Nós pensamos precisamente o oposto, isto é, que as crianças têm o direito (tal como os adultos) de ir buscar a aprendizagem aos pais, à escola e ao conhecimento autodidacta (livros, filmes, exposições, visitas aos jardins, parques, etc. e nas festas e espectáculos dar lugar à sua vontade de brincar, só isso.
Também numa festa de adultos não se pede que o espectáculo seja didáctico, os adultos (sem generalizar, claro), têm tendência para impôr à criança aquilo que não querem para eles. Quando realizam uma festa com pessoas do espectáculo (do show business), vão buscar por vezes até alguns que os divertem dizendo obscenidades. Ora não consta que isso seja didáctico, nem sequer para os próprios.

Há também actores/animadores que recorrem ao didactismo para espalhar nas crianças as suas ideias e pensamentos. Outros fazem-no para disfarçar a incapacidade de representar, de reter um texto na memória e interpretar uma história. É mais fácil falar sobre a lua recorrendo ao didactismo escolar ou pré-escolar do que contar ou representar uma história com imaginação e fantasia que tenha a lua como protagonista.

Esta matéria é porém suficientemente ampla para ser discutida num posting apenas. Procuraremos pois voltar a ela num futuro próximo.


P.S. Haverá quem possa responder: mas o didactismo não é incompatível com a diversão, ou é? Se pensarmos que o didactismo numa história ou num jogo é para veicular ideias, principios, regras de conduta, etc. então a resposta é sim. O didactismo não vem a propósito de uma festa. As crianças querem divertir-se, querem brincar, não querem aprender numa festa. Se pensarmos porém o didactismo no sentido em que as histórias tenham conteúdo, os jogos tenham conteúdo, isto é, não sejam actividades ôcas (e os jogos e as histórias infantis geralmente não são ôcas), então a resposta é invetivávlemtne sim, nesse sentido é compatível.

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Enviado por Carlos Martins às 13:19